TRANSFOBIA NÃO É ENTRETENIMENTO!

No mês da Visibilidade Trans temos um momento de representatividade para comunidade Trans, que depois de 11 anos têm uma mulher Trans, uma Travesti, num dos programas de entretenimento de mais audiência da TV brasileira. Há 11 anos atrás tínhamos a nossa querida Ariadna Arantes e em 2022 temos Lina Pereira, a Linn da Quebrada. Todavia, há 11 anos atrás longe estávamos de levantar as discussões que levantamos hoje sobre o reflexo da transfobia. A violência poderia ser apenas velada, como foi com a Ariadna, mas hoje podemos parar as redes e levantar nosso grito de JÁ BASTA! TRANSFOBIA NÃO É ENTRETENIMENTO!

Apesar de ser um programa montado e dirigido, muito do que se passa nele reflete as produções das relações sociais aqui no mundo real e material. Tanto a presença do Racismo Recreativo, como a presença da Transfobia como Entretenimento é reflexo de uma estratégia da estrutura branca e cis-heteronomativa da nossa sociedade como forma de manutenção de privilégios e de poder. Um pacto colonial sobre nossas corpas! No dia-a-dia ocorre a mesma coisa, tanto a existência das iniciativas e atitudes racistas e transfóbicas quanto o silêncio de uma grande camada da sociedade, uma defesa da violência e uma condescendência das instituições e aparelhos privados branqueados e cis-heterossexuais comandados e pertencentes a sujeitos brancos cis-heterossexuais.

Vou levantar algumas considerações:

Sobre o "erro" do pronome: é uma forma de reivindicar a identidade normativa. Não é somente errar é se reafirmar, como se dissesse: "Você é ELE, porque eu sou o ELA/ELE natural e normal." É uma estratégia para manter uma imagem social positiva sobre a identidade hegemônica e biológica de gênero.

Sobre o questionamento do esforço individual das pessoas Trans e das Travestis: Como a própria Lina respondeu: mais esforço que nós fazemos? O discurso da meritocracia é mais um lugar estratégico para justificar um sistema de desigualdade e de morte. É colocar sobre as costas do indivíduo os problemas estruturais, ao passo que o sujeito, gozador de privilégios dessa estrutura e sistema, se exime de qualquer culpa ou responsabilidade.

É um jogo muito bem desempenhado com um discurso racista e transfóbico extremamente articulado. Inclusive o argumento "ad hominem", de que a Lina estava agitada e não entendia a pergunta. Uma forma de taxar uma incompetência de compreensão e inteligência. É uma posição de dominação. Marcar e demarcar esse lugar universal e dar os critérios. Pressupor as condições políticas que produzem o 'Outro". É uma produção discursiva de poder branca cis-heteronomativa, se colocar para insinuar e marcar pessoas negras, trans e outras minorias-minorizadas como sujeitos incapazes de dialogar e de expor suas construções, considerações e reivindicações.

Por Juh Harielly - @juhtravando (https://www.instagram.com/juhtravando/)

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