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Jango: discurso da Central do Brasil em 13 de março de 1964

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  "Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.   Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.   Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.   Vou falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é também uma linguagem de esperança de...

O fim de uma era - Antonio Scuratti

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A partir de Milão, onde vive e está isolado, o escritor italiano Antonio Scurati escreve o que vê da janela da sua casa. Um texto angustiante e incomôdo Como posso convencer a minha mulher de que, enquanto olho pela janela, estou a trabalhar? — perguntava-se Joseph Conrad no início do século passado. Eu, em vez disso, pergunto-me: como posso explicar à minha filha que, quando olho pela janela, vejo o fim de uma era? A era em que ela nasceu, mas que não conhecerá, a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da Humanidade. Vivo em Milão, até ontem a mais evoluída, rica e brilhante cidade de Itália, uma das mais desejadas do mundo. A cidade da moda, do design, da Expo. A cidade do aperitivo, que deu ao mundo o Negroni Sbagliato e a happy hour e que hoje é a capital mundial do Covid-19, a capital da região que, sozinha, soma trinta mil contágios confirmados e três mil mortos. Uma taxa de mortalidade de 10 por cento, os caixões e...

Educação a Distância

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   No meu ultimo ano no curso normal eu estava estagiando numa escola pública e lá aconteceu a experiência que me fez ter certeza que mesmo dentro de todas as dificuldades, eu estava no caminho certo. Em uma aula de matemática para o 1º ano eu percebi que um dos alunos não fazia lição e estava inquieto na cadeira falando muito, infelizmente, atrapalhando os outros. Eu fui até ele e ele se aquietou, eu percebi que havia algo errado e pedi a professora para levar ele para andar no pátio. Ela sabia que havia algo errado e consentiu. Eu fui andando com ele puxando assunto sobre coisas aleatórias e no meio da conversa questionei o motivo dele não fazer a atividade. Ele respondeu que estava com fome e que não tinha tomado café da manhã naquele dia... Faltava muito para o intervalo. Então eu fui com ele até o refeitório e conversei com a merendeira, e ela me preparou um prato antes da hora que serviria. Por fim, tanto a merendeira quanto a professora, me disseram que era uma situaç...

Ascensão Putta, de uma Putta R-Existência.

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     Estávamos na noite, num quarto pequeno onde o beijo e carinho eram possíveis. A noite não tinha estrelas, por que a janela fechada para esconder o sexo, não nos permitia vislumbrar o céu. As nossas estrelas eram a luz forte e amarela do poste. O céu, este não nos pertenceu, a verdade da obra que se consolida nos homens é diferente da nossa, negamos o céu, éramos andarilhos da noite, daquela viela pequena, da esquina escura, do quartinho de um sobrado com uma luz vermelha na porta. Nós estávamos mortos antes de completarmos os cinco anos,  e morremos antes dos 35, desde cedo já nos sufocavam, e sufocam, no objeto coercivo de uma fé abominável, de morais imorais, de estruturas normativas e de um sistema genocida. Nossa sepultura tinha, e ainda tem cheiro de sangue e gosto de sexo.   Na madrugada a fora adentravam nossos corpos com um cuspe, e nos machucavam moral e fisicamente. Mas o que podíamos fazer? E ainda o que podemos fazer? A maioria de nós est...

COVID-19: O capitalismo tem seus limites

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Do   Blog da Boitempo por Judith Butler* | Tradução de Artur Renzo  "O imperativo de isolamento coincide com um novo reconhecimento de nossa interdependência global no novo tempo e espaço da pandemia. Por um lado, somos solicitados a nos recolhermos em unidades familiares, espaços compartilhados de moradia, ou domicílios individuais, privados de contato social e relegados a esferas de relativo isolamento. Por outro lado, estamos diante de um vírus que transpõe tranquilamente as fronteiras, completamente alheio à própria ideia de território nacional.    Quais são as consequências dessa pandemia no que diz respeito à reflexão sobre igualdade, interdependência global e nossas obrigações uns com os outros? O vírus não discrimina. Poderíamos dizer que ele nos trata com igualdade, nos colocando igualmente diante do risco de adoecer, perder alguém próximo e de viver em um mundo marcado por uma ameaça iminente. Por conta da forma pela qual ele se move e ataca,...

Era uma vez, Maquiavel no liquidificador

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   Na observação simples do domínio do Sol sobre a Terra na tarde que cai, vê-se o brilhar intenso da peça que ilustra a cabeça e ornamenta um título, a coroa polida e cravada de pedras preciosas. A Figura dada a apreciação imaginária de contos que constroem a figura de um ente que ocupa a cadeira e pressupõe a consolidação do poder, o Príncipe, que servirá a manter-se a soberania de um arranjo que se fará compreendido como o Estado.     O príncipe caminha vagarosamente por uma estrada de inquietações e turbulências, não para resgatar a donzela perdida e dar-lhe um beijo de “amor verdadeiro”. A única donzela em perigo é o poder e as suas ramificações complexas. O príncipe tem alguns caminhos distintos para beijar o poder e deitar-se no seu leito tendo orgasmos triunfantes na sua tão desejada soberania e Maquiavel descreve e exemplifica esses caminhos que de longe são o mais romântico conto de fadas. O domínio e o poder do príncipe podem vir com o sangue ou ...

Desemprego em milhões, mas e para as pessoas Trans e Travestis?

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  De acordo com o site da Folha de São Paulo ( https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/taxa-de-desemprego-fica-em-112-em-janeiro-diz-ibge.shtml ) a taxa de desemprego ficou em 11,3% no trimestre encerrado em janeiro deste ano - 2020 - com elevado aumento da informalidade. Olhando para esse quadro que vem se estendendo nos últimos anos e afetando muitas pessoas, pensemos sobre como é viver  com o desemprego e a informalidade, mesmo quando a taxa de desemprego está baixa no país. Por trás de todo e qualquer índice social e econômico há pessoas com suas histórias e especificidades, isso é evidente, e que os números são incapazes de retratar as subjetividades, mas quando se trata de dados sobre a Comunidade transgênero no Brasil é possível dizer que a realidade vivida por estas pessoas é quase que invisível aos olhos dos principais institutos de estatística. É possível dizer que são praticamente esquecidas, pelos números, pela sociedade e pelo Estado. Convido-o ...

NÃO VEJO NADA!

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NÃO VEJO NADA; foram anos a fio, corte e navalha para entender minha sexualidade, minha identidade, para encontrar aqueles 99% que me direcionam, me movem e me completam. Eu sofri em demasia para criar uma identidade que me deixasse bem, que me fizesse feliz. Cada dia dos últimos anos foi uma descoberta para meu autoconhecimento, foram dias dolorosos e noites de infortúnio. Foram soluços silenciados no travesseiro à noite. Foi a vontade miserável de não querer mais viver, de arquitetar a morte e não poder morrer.  NÃO VEJO NADA; é como se estivessem me sugando para aquela pele velha, aquela caixa sombria e gélida onde como imã me grudava com violência a um só polo. Aquela caixa, aquele corpo que às vezes surge no reflexo e cujo qual não sei o que fazer. Meu peito seco, tão oco e abafado pressiona o choro, mas a lágrima nem mais escorre. A face é parada e sinistra, a morte com sua capa branca, anéis nos dedos e crucifixo no pescoço reza ao lado do meu leito. Eu às vezes...