Educação a Distância
No
meu ultimo ano no curso normal eu estava estagiando numa escola pública e lá
aconteceu a experiência que me fez ter certeza que mesmo dentro de todas as
dificuldades, eu estava no caminho certo. Em uma aula de matemática para o 1º
ano eu percebi que um dos alunos não fazia lição e estava inquieto na cadeira falando
muito, infelizmente, atrapalhando os outros. Eu fui até ele e ele se aquietou,
eu percebi que havia algo errado e pedi a professora para levar ele para andar
no pátio. Ela sabia que havia algo errado e consentiu. Eu fui andando com ele
puxando assunto sobre coisas aleatórias e no meio da conversa questionei o
motivo dele não fazer a atividade. Ele respondeu que estava com fome e que não
tinha tomado café da manhã naquele dia... Faltava muito para o intervalo. Então
eu fui com ele até o refeitório e conversei com a merendeira, e ela me preparou
um prato antes da hora que serviria. Por fim, tanto a merendeira quanto a
professora, me disseram que era uma situação bem comum. Isso marcou minha vida,
porque um dia eu fui esse garotinho.
Por esse motivo e como uma pessoa que se
instruiu e se instrui constantemente em pedagogia e cursa licenciatura em filosofia, condiciono a pensar
que o tema de EAD é muito importante e delicado para ser tratado como simples
demagogia, como vem sido tratado no meio da pandemia da COVID-19 pelos veículos de mídia, bastante tendenciosos. No Brasil o
desenvolvimento da educação em si já está precarizado com uma tensão contante da política atual, que demonstra como a educação é interseccionada pela
mesma desigualdade que estrutura o país.
Ao passo que começamos a defesa do SUS, aceleramos mais o sucateamento da educação por falta de análise mais profunda, inclusive alguns alunos, professores e estudiosos da área de educação que estão lidando muito superficialmente com a questão. Vou resgatar uma coisa: a alguns meses atras se dizia da tal ideia de "Escola sem Partido", um projeto que visa desmoralizar a educação pública e o trabalho do professor que mediante a realidades plurais tenta fazer seu melhor trabalho didádico-pedagógico. Este projeto vem com o discurso de que sua ideia visa buscar uma educação apolítica - como se isso existisse, essa ideia de apolítica é tão real quanto o Supermam voando por aí.
Ao passo que começamos a defesa do SUS, aceleramos mais o sucateamento da educação por falta de análise mais profunda, inclusive alguns alunos, professores e estudiosos da área de educação que estão lidando muito superficialmente com a questão. Vou resgatar uma coisa: a alguns meses atras se dizia da tal ideia de "Escola sem Partido", um projeto que visa desmoralizar a educação pública e o trabalho do professor que mediante a realidades plurais tenta fazer seu melhor trabalho didádico-pedagógico. Este projeto vem com o discurso de que sua ideia visa buscar uma educação apolítica - como se isso existisse, essa ideia de apolítica é tão real quanto o Supermam voando por aí.
Mas por que falei do "Escola sem Partido"? Por que esse projeto usa
argumentos contra as diversas teses didático-pedagógicas que falam sobre
construtivismo, educação inclusiva, educação mediadora, etc. Estes são pautados
por uma ideia na qual Paulo Freire, Vygotsky, Montessori, Pestalozzi e tantos
outros grandes pensadores da educação promovem uma dita "pedagogia de
esquerda" que deve ser combatida. Todavia esse projeto não é nada mais
que uma tentativa neoliberal e de uma ideologia específica que prevê acabar com a Educação
Pública. A grande questão que quero evidenciar, na contramão desse movimento
que ataca a educação pública, é que a educação privada, principalmente dos colégios
de "pessoas ricas" ou de uma classe média com poder aquisitivo, tem todos esses pensadores amplamente
aplicados e discutidos. Todo o projeto, sua narrativa e argumentação é uma
falácia; e agora a discussão de EAD vem na mesma
linha. Afinal quem é que ganha com a discussão superficial e as propagandas pró-EAD?
Puxei
essa reflexão porque ela é essencial para se pensar que em si a utilização de
TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) não é ruim, o problema é a
desigualdade gritante e a falta de incentivo e investimento na educação como um
todo no Brasil. É impossível se pensar em por uma criança para ser educada a
distância quando ela, sem a escola, não teria garantido nem suas refeições do dia. Já quem nasce em uma família rica ou de condições financeiras favoráveis vai manter os seus respectivos espaços de ensino presencial e com a mesma ação didática e pedagógica que já vêm adotando a tempos. Propor
num país de desigualdade social gritante como o brasileiro a EAD, como se isso fosse
uma grande evolução educacional, sem uma discussão séria da materialidade real da vida no país, é propor a maximização
da desigualdade, a fome e a morte das pessoas empobrecidas. Política de morte, de genocídio e de degradação vem de diversas formas e sobre diversas áreas, ou ficamos atentos, ou seremos engolidos.
A
educação em países desiguais como o Brasil é uma das chaves de crescimento e de
mudança, não só da melhoria da vida de milhares, como também da economia e
desenvolvimento nacional. Porém o que vemos no Brasil é um projeto
de poder fascistóide e eugenista amplamente apoiado pela estrutura econômica e política liberal que quer barrar o processo de ascensão e
progressão e equidade social. Não podemos esquecer que tem liberal no Brasil, como Joel Pinheiro, que defende legalização da venda de órgãos, então esperem tudo de liberais...
Quando a educação abraça empobrecidos, negros, mulheres e LGBTs, estes que antes sempre eram tão marginalizados, deixados a fome e na miséria e jurados de morte em silêncio, não têm sua realidade transformada radicalmente, mas começam com o mínimo de ascendência e esperança de mudança. Essa ascensão significa que certos lugares antes pertencentes à prole de uma classe específica começam a ser questionados.
Quando a educação abraça empobrecidos, negros, mulheres e LGBTs, estes que antes sempre eram tão marginalizados, deixados a fome e na miséria e jurados de morte em silêncio, não têm sua realidade transformada radicalmente, mas começam com o mínimo de ascendência e esperança de mudança. Essa ascensão significa que certos lugares antes pertencentes à prole de uma classe específica começam a ser questionados.
Mesmo assim preciso dizer que ainda há outros fatores de discussão. Quando a
disputa começou, ela também começou com alta disparidade. Pensemos como apoio
de reflexão o ingresso no Ensino Superior. Enquanto um primeiro: jovem
empobrecido (leia com aporte de diversas intersecções como de raça, gênero, sexualidade,
necessidades especiais...) teve uma educação básica defasada, mal tem tempo
para se preparar para provas do vestibular, pois precisa trabalhar, ajudar a
família e lidar com as mais diversas problemáticas sociais, urbanas,
sanitárias, etc... Noutro lado um segundo: jovem que tem condições financeiras
favoráveis, além de uma educação básica de altíssima qualidade paga um mega pré
vestibular totalmente financiado pelos pais.
Quando o primeiro alcança o ensino superior suas dificuldades antes citadas só
se multiplicam; enquanto para o outro a vida segue normal, tão normal que ele
até "mata aula" pra beber no barzinho e demonstrar toda sua
idiotia em discursos cheios de privilégios. Enquanto o primeiro demora o dobro do tempo para conseguir concluir o curso e
quando termina não consegue trabalhar na área por falta de oportunidade, mesmo
que tenha potencial para exercer e ser ótimo na função; o segundo termina às
vezes antes e já tem sua indicação pronta ou a vaga na empresa da família.
Enquanto em muitos casos o primeiro só consegue uma bolsa ou financiamento para
uma faculdade particular mais ou menos
e tem que multiplicar mais ainda os seus esforços para conseguir se formar e
ter um ótimo desempenho no currículo. O segundo com sua vaga na universidade
pública quase que garantida, pega as melhores bolsas de pesquisa e extensão e cola com aquela maioria de professores
de discurso que engoliu o dicionário Aurélio, hipócrita e academicista de alta
desonestidade intelectual; o qual ele seguirá os passos e se tornará muitas
vezes igual no futuro.
Dependendo de quem chegou até aqui na leitura, eu já devo ter sido xingada,
chamada de "mimizenta" e se bobear jurada de morte. Mas
vamos a outro ponto, o Brasil é um país onde até a cobertura de internet é
desigual. As empresas de telefonia no país são tão atrasadas com seu projeto
que só visa o acumulo de capital, que eles literalmente não investem em
qualidade e expansão, apenas em mercado de lucro. Enquanto países pelo mundo
falam em tecnologia 5G, o Brasil além de não possuir nem a 3G funcionando
efetivamente, em alguns lugares não existe nem possibilidade de atendimento. Quando
se fala na internet cabeada, acredite a situação só piora e junto dela o valor
do atendimento. Assim como o transporte coletivo, caro e de péssima qualidade,
o serviço de internet no Brasil segue a mesma via de regra. Agora pega isso e
pensa na criança que não tem nem o que comer direito. Pois é leitor , espero
que a partir daqui você repense os posts
na rede social e o copia e cola lacrador de jornalzinho liberal. Eu gostaria de falar mais, contudo não
quero me estender, meu maior intuito é provocar a reflexão e a crítica.
****Obs.: Aqui digo, no nosso atual cenário a
universidade pública deveria ser para quem não pode pagar, para quem pode que
pague a sua particular. Se teve condições de dar de 3 a 10 mil reais numa
escola particular, pode muito bem pagar uma universidade privada. Agora numa
outra concepção mais radical, para mim não deveria existir capitalização de
ensino, deveria haver equidade e igualdade de acesso com qualidade educacional horizontal
para todos. Nesse cenário ultimo até podemos falar de EAD, fora isso é uma canalhice
e uma desonestidade intelectual desses muitos estudiosos da educação no Brasil.
Vermes com livro de baixo do braço e meia dúzia de palavras rebuscadas.
.
Dedico esse texto ao garotinho que fui e a pessoa que sou hoje e também as minhas amigas Carla e Raquel.
Dedico esse texto ao garotinho que fui e a pessoa que sou hoje e também as minhas amigas Carla e Raquel.

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