Ascensão Putta, de uma Putta R-Existência.


     Estávamos na noite, num quarto pequeno onde o beijo e carinho eram possíveis. A noite não tinha estrelas, por que a janela fechada para esconder o sexo, não nos permitia vislumbrar o céu. As nossas estrelas eram a luz forte e amarela do poste. O céu, este não nos pertenceu, a verdade da obra que se consolida nos homens é diferente da nossa, negamos o céu, éramos andarilhos da noite, daquela viela pequena, da esquina escura, do quartinho de um sobrado com uma luz vermelha na porta. Nós estávamos mortos antes de completarmos os cinco anos,  e morremos antes dos 35, desde cedo já nos sufocavam, e sufocam, no objeto coercivo de uma fé abominável, de morais imorais, de estruturas normativas e de um sistema genocida. Nossa sepultura tinha, e ainda tem cheiro de sangue e gosto de sexo.  Na madrugada a fora adentravam nossos corpos com um cuspe, e nos machucavam moral e fisicamente. Mas o que podíamos fazer? E ainda o que podemos fazer? A maioria de nós está morta para a família, para os amigos e para a sociedade, por um grande projeto de higienização. 
     Mas a mudança é inerente a existência, nós encontramos o calor do sol, ele é diferente das estrelas que a janela na noite escondia, ele não pode ser escondido. Este brilha forte nas manhãs de todas as estações. Éramos cria-aturas da  noite, contudo com o tempo quando o dia chegava, nós íamos ficando um pouco mais no decorrer das horas, apreciávamos o amanhecer, e mesmo com medo muitas de nós foram saindo com suas feridas tampadas sentindo a luz. O brilho era bom, era calmo, era um calor doce. Temos muitos dilemas e paradoxos em nós mesmos e esse encontro com a luz, causa-nos feridas profundas na alma e no corpo. Eles, Estes e Aqueles, estavam e estão lá, sempre que podem, para nos mostrar o que acham ser o nosso lugar para tentar nos submeter ao recorte higienista de morte e marginalização. Mesmo ainda estando muitas de nós aqui na luz, Eles ainda estão lá incessantemente nos regrando, dando o que querem como se fosse favor. As leis são Deles, quem assina e sustenta as reivindicações são Eles e somente as que Eles querem. Somos o que somos e pronto, mas isto equivale também  ao problema; na luz só ficam aqueles que são o que querem que eles sejam.
    Neste contexto a luz representa certa liberdade num regime estrutural opressor. A opressão que ocorre porque algo não se traduz como o convencional, porque um corpo não se enquadra nas definições de objeto comum. O opressor oprime porque a nossa liberdade de putta pode romper com convenções, principalmente morais-religiosas, em que a sociedade organiza enquanto formação do ser social. Nessa relação o regime de opressão é composto por tantas formas, apresentações e representações, que só atravessa e derruba corpos nas esquinas.
   Nós sofremos muito, muitos morreram e morrem em vida e em matéria, contudo no ponto criamos uma sociedade nossa; melhor que isso, criamos uma irmandade. Aos poucos, fomos nos protegendo, nos armando, nos munindo, nos amando, cuidando umas das outras  mais que antes. É uma guerra e aos poucos fomos descobrindo nos antepassados, que foram alicerce de r-existência, como lutar, desde as “bruxas” queimadas sem saber o que dizia o latim, às mulheres negras escravizadas e violentadas na casa grande por um “senhor”. Fomos assim desmistificando quem eram os protagonistas dessa opressão, buscando força nos nossos antepassados  e suas lutas, passamos a ir no corre, e viramos a resistência, uma existência. A Religião nos apedrejou e apedreja; a medicina nos enlouqueceu, a biologia nos castrou, a psicologia nos eletrocutou, a ditadura nos prendeu e nos torturou e mesmo assim sobrevivemos. No entanto há a dita-dura do pênis alfa que continua Cistêmica e Estruturalmente Cissexista. Nesse rumo, por exemplo, fomos e somos encarceradas sem dó, sem piedade, com gosto de sangue pós um taba do alibã.  É uma luta sem fim...
     Dias melhores têm vindo, novas soluções para novos problemas, nós somos da noite e do dia também, mais do que nunca, e isso é incômodo para alguns. E por quê? Porque antes fazíamos o que queriam que fizéssemos. Porque reivindicamos nosso direito de amar, de ter paz e de ser mais do que nos coagiam a ser, de andar na luz. Porque estamos saindo das sombras e do quarto fechado, nosso beijo e carinho não são mais no canto, na margem, entre quatro paredes. Porque o afeto rende novos sentidos, trans-forma-se. Porque Eles sabiam de nossa existência, eles não ligavam para ela, Eles queriam essa existência, mas tudo isso para cumprir Seus(deles), caprichos. Eles desejavam e desejam nossos corpos, muitos querem ser como nós. Desde que a norma seja tudo escondido e velado, numa relação de poder e dominação.
    No entanto cada um sempre terá o seu próprio quarto, suas próprias dores. Cada um nesse ponto advém de uma viela diferente, de uma quebrada diferente. E dar nome as opressões não constitui identitarismo, constitui funcionalidades de ver e rever posições, desconstruir estratégias e construir novas, com a radicalidade necessária de encontrar aquilo que torna tudo comum e interseccionar a forma de resistir. Dar nome as opressões faz com que não sejamos aqueles que brigam e lutam para deixar ver as estrelas na noite, mas pela possibilidade de ter o dia para todes. Uma resistência à opressão não pode ser opressora, se uma movimentação anti-opressão é opressora, existe uma contradição em sua fala, conceituação e articulação. Mas é isso, mesmo na luz, ainda estamos empurrando uns aos outros para a sombra, mesmo que pálida e constituída por uma construção arbórea, é sombra. Mesmo na luz, basta uma crise política-econômica para sermos esquecidas, apagadas, escondidas e deslegitimadas. Lutemos com a cara no sol, resistir é existir, existir já é resistir. Vivam mais um dia! Como todes, todas e todos que vieram antes de nós caminhemos nessa Ascensão Putta, de uma Putta R-Existência!

Escultura "Máquina de sonhos: Dandara (2019)", homenagem a Travesti Cearense Dandara dos Santos em Nova York, 229 Tenth Avenue.


"Hoje você faria 45 anos de idade (14 de dezembro de 2019). Poucas pessoas no mundo possuem o poder de despertar empatia aonde quer que vão. Hoje, eu entendo que você é uma delas. Eu pensei que estaria corrigindo uma injustiça dando seu nome a essa escultura mas você serviu um propósito maior que a própria arte. Seu espírito desperta empatia em todas as pessoas que passam por ela. Você toca tantas vidas em tantas maneiras. Desde @vitoria.holanda.7, que cresceu com você e ajudou a colocar os seus assassinos na cadeia e escreveu um livro sobre você, até eu, que vivo tão longe e nunca te conheci. Estamos nos certificando de que você nunca será esquecida. Feliz aniversário, Dandara!" Rubem Robierb


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