Desemprego em milhões, mas e para as pessoas Trans e Travestis?
De acordo com o site da Folha de São Paulo (https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/taxa-de-desemprego-fica-em-112-em-janeiro-diz-ibge.shtml) a taxa de desemprego ficou em 11,3% no trimestre encerrado em janeiro deste ano - 2020 - com elevado aumento da informalidade. Olhando para esse quadro que vem se estendendo nos últimos anos e afetando muitas pessoas, pensemos sobre como é viver com o desemprego e a informalidade, mesmo quando a taxa de desemprego está baixa no país. Por trás de todo e qualquer índice social e econômico há pessoas com suas histórias e especificidades, isso é evidente, e que os números são incapazes de retratar as subjetividades, mas quando se trata de dados sobre a Comunidade transgênero no Brasil é possível dizer que a realidade vivida por estas pessoas é quase que invisível aos olhos dos principais institutos de estatística. É possível dizer que são praticamente esquecidas, pelos números, pela sociedade e pelo Estado. Convido-o caro leitor ao exercício da reflexão e da empatia.
Esse desemprego e consequente necessidade de recorrer a informalidade é o que acomete as pessoas Trans e Travestis desde sempre, segundo o Relatório da violência homofóbica no Brasil, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH), a transfobia faz com que (nós) pessoas Trans e Travestis “acabem tendo como única opção de sobrevivência a prostituição”. Um número divulgado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) mostra que cerca de 90% da população Trans e Travesti já tiveram que se prostituir como alternativa de sobrevivência tendo esta como sua unica fonte de renda. Sem uma legislação específica que garanta espaço no mercado de trabalho e na educação, pessoas Trans e Travestis dependem de iniciativas pontuais por parte de algumas empresas e instituições. Esse movimento, contudo, é muito tímido e algumas empresas que fazem, por exemplo, "propagandas de inclusão e diversidade", na prática de Recursos Humanos se comportam bem diferente. Não é mesmo Bancários?! Muitas dessas empresas condicionam exigências curriculares absurdas que vão de pedir três línguas até graduação e/ou mestrado/doutorado. Mas o que tem de absurdo nessas exigências? Simples, o pressuposto de que há equidade de competição.
Uma prática comum, em relação aos currículos, é a lógica da experiência de 2,3,4 anos, apesar de acometer também a pessoas Cis, torna-se muito mais delicado para a população Trans e Travesti. Afinal de contas dar oportunidades não tem que vir com a resposta pronta para "Quem vem primeiro, o ovo ou a galinha?". Fora as micro violências e transfobias, a exemplo: ter como exigência para vaga "regularizar" nossos corpos no padrão CIS, exigindo o perfil que devemos nos condicionar usando marcas de estereótipos. Já ouvi depoimento de pessoas que descrevem falas do tipo: "- Você não tem seios vai ter que andar como homem!"; "- Esse pelo no braço e na perna não está legal, não é melhor tirar, fica mais feminino". Mas claro que há situações extremamente hostis que vão desde o gestor até a equipe, desde pequenos comentários aqui e ali até perseguição e humilhação direta, levando ao pedido de demissão.

No mercado de trabalho, a tal lógica 'Liberal' de deixa que o mercado se organiza por si próprio gera esses tipos de fenômenos onde podem até haver as possíveis intenções de promover iniciativas de inclusão e diversidade ou somente a de parecer que as possui, por algumas empresas, mas que no entanto de nenhuma forma são realmente eficazes. Primeiro que existe uma lógica social que nas instituições e empresas se repetem, afinal são lugares de relações sociais e sujeitas a essa mesma lógica; são como espelhos de exclusão, marginalização e desumanização de certos corpos. Segundo que há a questão de lucro, se não for um produto/serviço onde se possa esconder as perfomances de gênero e sexualidade dessas pessoas por trás de uma passabilidade ou ocultação; ou onde se possa usá-las (pink money); entre a iniciativa e o dinheiro... o dinheiro fala mais alto. É por isso que os setores que mais contratam são Telemarketing; Vendas/Serviços Específicos - nas áreas de beleza e perfumaria - e Serviços Gerais; e que mesmo assim ainda preferem as identidades Cisnormativas. No fim das contas o interesse da maioria dessas grandes empresas são os gays, brancos e cisnormativos no alvo das iniciativas de "inclusão" no mercado de trabalho, para dizerem que fazem um trabalho "social" e fingirem que se importam.
Quando o Estado não se submete a criar condições de inclusão, que vão desde educação a acolhimento psicossocial, as pessoas Trans e as Travestis (nós) ficam a mercê da própria sorte. É uma hipocrisia absurda quando se sabe que a maioria de pessoas Trans e as Travestis nem terminam o ensino fundamental ou médio; onde se sabe que a maioria destas são abandonadas pela família; onde se sabe que como meio de fuga e escape muitas também se entregam a vícios... e principalmente onde se sabe que a expectativa de vida destas é de 35 anos - A Reforma da Previdência aumentou pra qual idade mesmo a aposentadoria? E aí quando se fala em direitos algumas pessoas "forçam a barra" dizendo que se exigem privilégios, quando na verdade efetivamente ninguém liga de verdade em refletir sobre um processo estrutural de coisificação e desumanização da população Trans e Travestis. Nada do que se pede é privilégio, já que Direito a Educação, Saúde, Moradia, etc; são constitucionais. Na verdade os direitos exigidos não são nada além de uma cobrança do cumprimento das leis que regem o Estado.(Brasil, o Estado de Direito, com Exceções)
Após levantar todas essas questões é preciso encarar que o cenário só muda quando as políticas são feitas também na base, não adianta somente iniciativas de empresas ou projetos de lei que possibilite cotas, para além disso tem de haver um processo de rompimento de estruturas, desconstrução de comportamentos institucionais , educação. Quantas escolas tratam no seu PPP (Projeto Político Pedagógico) na pauta de inclusão sobre pessoas LGBTQIA+ e principalmente de Trans e Travestis? Ande no corredor de uma Universidade, quantas pessoas Trans e quantas Travestis têm lá? Ande nas praças, mercados, padarias, na política, no escritório de advocacia, na sala de uma especialidade médica ... quantas pessoas Trans e quantas Travestis estão ocupando esses espaços? Agora vire a chave, passe em zonas de prostituição, ou pra quem é do Rio de Janeiro, olhem dentro das cabines de telefones públicos, agora responda: quantas pessoas Trans e quantas Travestis têm lá?
Obs.: E para as gays que tem empresas sejam pequenas, médias ou grandes, parem de contratar héteros e CIS e olhem as "manas, manos e minas" da comunidade (LGBTQIA+), principalmente as Trans e Travestis, que estão precisando. Use alguns de seus privilégios para algo melhor! Dê a mão de verdade e não só no "textão" do Facebook, Instagram, ou Twiter, para ganhar likes e viralizar.
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