NÃO VEJO NADA!



NÃO VEJO NADA; foram anos a fio, corte e navalha para entender minha sexualidade, minha identidade, para encontrar aqueles 99% que me direcionam, me movem e me completam. Eu sofri em demasia para criar uma identidade que me deixasse bem, que me fizesse feliz. Cada dia dos últimos anos foi uma descoberta para meu autoconhecimento, foram dias dolorosos e noites de infortúnio. Foram soluços silenciados no travesseiro à noite. Foi a vontade miserável de não querer mais viver, de arquitetar a morte e não poder morrer. 

NÃO VEJO NADA; é como se estivessem me sugando para aquela pele velha, aquela caixa sombria e gélida onde como imã me grudava com violência a um só polo. Aquela caixa, aquele corpo que às vezes surge no reflexo e cujo qual não sei o que fazer. Meu peito seco, tão oco e abafado pressiona o choro, mas a lágrima nem mais escorre. A face é parada e sinistra, a morte com sua capa branca, anéis nos dedos e crucifixo no pescoço reza ao lado do meu leito.

Eu às vezes olho no espelho e NÃO VEJO NADA; daí é um vácuo alucinante de uma alma cheia em um corpo que não a cabe. Às vezes me sinto transbordar e às vezes me sinto atrofiar. Nos últimos tempos eu estou sendo pressionada a ignorar quem eu descobri que sou em função de padrões normativos que usam como uma face da moeda de troca o "pão nosso de cada dia". Ou cumpre nossas regras ou passe fome é o que me gritam calados em acordo. Ouço os ruídos sarcásticos e ignorantes em violentas falas a reafirmar sua mediocridade de não conseguir romper o tanto que rompi, são fracos de espírito e de potência. Esbofeteiam-me a face e cospem ao passar por mim. Esbarram-me por propósito de ter legitimidade de me agredir. Suicídio iminente, a mente sente e não aguenta a pressão persistente; contrato de sangue dinheiro rosado.

NÃO VEJO NADA; mas ouço outro acordo surdo na madrugada. O acordo tem cheiro de sexo e adentra o Cu. É o impasse da noite, onde o pão vem junto com um pau torto e ereto. Um gozo rápido e um urro orgástico. A outra face da moeda de troca é a oculta, o corpo como commodities. O fruto proibido, a legitimidade do usufruto de "bonecas" de carne e osso que substituem a punheta, a esposa, sua retórica moral e sua fragilidade quanto a própria sexualidade. Ele quer um cu ou sentar no "pau", mas ele quer "paus" novos e cus novos; então nossa morte faz parte desse outro contrato de sangue escarlate.

NÃO VEJO NADA; a nossa vida é piada do roteiro de uma série, novela... a bixa que faz humor e todo mundo ri. A piada que destrói identidade, que cria imagens e marginaliza com "axiomas". A sonsa maldade que nos põe como possibilidade do riso, do escárnio. E dai o sistema traz os agregados. O lacre de Apartamento. O posicionamento de gabinete. A tese de academicismo com pura desonestidade intelectual deslocada de qualquer realidade. Fazem de tudo, de propaganda de cerveja até banco específico; contrato de sangue em um “pink cash”.

NÃO VEJO NADA, por mais que eu tente, minha potência é suprimida num arranjo maior que eu. Deus? Esse não faz nada por ninguém é mais um macho patriarcal que reina o reino no qual minha morte é sua oferta em sacrifício. O campo que me oprime não surge de asas angelicais do transcendente, mas dos pés humanos que pisam como se fosse eu uma formiga. Um corpo que transgride a divina trindade, que mostra que a cruz sempre foi estaca e que o fogo nunca foi espírito, muito menos santo; ele queima vivo na fogueira as bruxas.

NÃO VEJO NADA; ontem eu era humana por que jogava o jogo nas regras deles, hoje não sou mais nada... nem humana, nem animal. Na verdade, um cão morto com requinte de crueldade no supermercado sustenta mais comoção que as travestis mortas na "quebrada". E eu faço essa afirmativa com o devido destaque, onde não justifico a morte e maldade a animais, mas ponho em questão que existem seres humanos que estão sendo considerados menos que um animal; por vezes menos que uma rocha. Não somos nada para eles, no jogo somos mais um daqueles mosquitos que pousa sobre o tabuleiro e é esmagado por uma palma pesada e afoita para se livrar do "intruso" e continuar o fluxo.
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NÃO VEJO NADA; lugar de fala sem geografia e sem contexto virou pressuposto da opinião em cópula com a barbárie. Esvaziou! Virou a ideia patinada de que se fala, fala, fala e não chega a lugar algum. No transporte, na esquina, no comércio... a vida continua difícil, é sobrevivência e não vida. Não há emprego, não há alimento, não há abrigo, não há remédio, não há afeto, não há... Parabéns, suas belas palavras de uma "LGBT", branca de apartamento...não você não fala por todas, todos e todes. A vida é muito mais que uma sigla, um discurso, uma postagem bonita no Facebook valendo likes. Não... a vida tem recorte, de classe, raça e gênero e se você não condiciona isso dentro de você mais do que fora nada vai acontecer.

NÃO VEJO NADA; e continuo sem ver... O pior que agora é que não sei o que é ver, os olhos já não são mais os mesmos, os problemas sim, as soluções não consigo sentir, o gosto da vida qual é? Meu olfato também já não sente odor da mudança e escuto a desumanidade da humanidade. Sentidos? O que é isso, eu já nasci morta. Não estamos vivos, não somos puros, não decidimos, não temos liberdade, não temos nada. Não vejo nada, não sinto nada, não enxergo nada, não ouço nada, não tem gosto de nada... nada, nada, nada, nada, nada, nada, anda, anda, anda, nada, nada, nada, anda, anda, anda, anda, dana, dana, dana, nada, anda, dana...NADA!

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