Amem corpes Trans !

Quando se é Trans, normalmente nem tem quem lhe dê a mão... então...
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   Eu sou a Ju, e como uma postagem inicial do Blog, irei fazer um desabafo: Minha irmã mais velha me perguntou se agora que eu me reconheço como pessoa Trans, se eu tenho mais relacionamentos que quando eu me identificava somente como um gay Cis. Eu falei que não sabia responder, mas parei para analisar e refletir sobre.

   Em determinado momento notei que quando eu me compreendia e performava Gay e Cis, eu recebia poucas propostas de sexo casual e muito mais afetos e enfim, algo a mais que sexo. Hoje que me compreendo e performo Trans e Pan, eu obtenho mais propostas de sexo casual que de afeto. Ou seja, a sexualização do meu corpo pelo externo interpessoal das relações aumentou conforme meu transicionar.
    Penso e tenho uma leitura sobre a vida muito da minha tentativa de sobrevivência nesse mundo de norma CISheteropatriarcal . Quando observo os fatos e as estruturas sociais tanto macro, quanto micro fico cada vez mais anestesiada de perceber o quão difícil é simplesmente viver mais um dia; existem tantas coisas que somente nos atravessam que nós só vamos, seguimos, a dor já não dói, a ofensa já não ofende, o xingamento já não... enfim. Mas existem momentos em que alguém te dá aquela chamada-estopim que te leva a refletir. Em nenhum momento nesses anos em que eu vim me compreendendo e caminhando nesse constante transicionar eu havia parado para analisar ou associar esse aspecto em específico das minhas relações.
    Não obstante compreendo que existem várias implicações sobre isso, como a influência de um padrão normativo de afetos, sexualidade e performances de gênero-sexo que  regulam nossas relações na sociedade. Existe também a expansão, de minha parte, sobre conhecer e frequentar outros lugares não normativos e mais diversos e de tentar conviver só ou com os meus. Todavia vale perceber que quando você sai da norma você morre, vira objeto, vira abjeto. Eu sou trans Não-Binárie e não consigo estar em nenhum extremo, não sou homem e nem tão pouco mulher e por isso na lógica Cistemica de binaridade, não estou em lugar nenhum; ou seja, num não-lugar. E aquela pessoa que está num lugar bem aceito, por mais plástico que isso seja, tem uma série de atravessamentos que a engessa e não permite que ela consiga dar a mão a quem está nesse lugar de não-lugar, que a impede de ser outro que não aquilo que disseram que ela é, ou pode ser. Preciso dizer que a percepção e decodificação do mundo varia na subjetividade das relações de cada individuo. A sexualidade também gera um sistema de casta e de classe, a sexualidade é capital, é dinheiro. O mundo que nós vivemos se estrutura numa bolha de avanços e retrocessos, é tudo ao mesmo tempo numa dinâmica incessante.
   Portanto, em certo sentido, tudo que expresso aqui leva a uma inquietação reflexiva sobre pelo menos duas coisas muito ativas que atravessam a existência de nossos corpos Trans: a Solidão, afetiva e emocional, e a Hiperssexualização, de nossos corpos como coisas ou objetos. Finalizo perguntando: Quem é capaz de amar e se afetuar por um corpo Trans e com isso estar disposto a enfrentar todos os atravessamentos violentos de um mundo Cis, binário e Hétero sobre essas existências "transgressoras"?

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